Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Sobre o Menino do Rio...



Depois de almoçar com uma amiga, fui andar na praia: calça jeans dobrada até o joelho, camisetão, câmera fotográfica enrolada em uma canga, chinelo comprado no dia anterior. Queria pôr os pés na areia, sentir um pouco de água salgada deslizando entre os dedos, ficar um pouco em silêncio. Estiquei a canga, me desprendi dos chinelos, fotografei muito do céu carioca. A praia estava vazia, um fim de tarde com brisa gelada. Eu ando friorenta... Foi a primeira vez que senti frio na minha cidade dos sonhos. Não gosto de frio, mas, lá, até dele eu gosto.


Um garoto parou de bicicleta perto de mim. Pediu que eu cuidasse dela para que ele entrasse no mar. Eu disse que sim, e continuei olhando para o horizonte através das minhas lentes. Não sei quanto tempo ele passou no mar porque me distraí completamente com meus pensamentos. Só me dei conta da sua presença quando, já próximo da bicicleta...

- Tá com cara de apaixonada, hein?


- Anh?


- Você... Olhando assim para o nada e com esse sorriso incontrolável nos lábios. Isso é cara de amor. Olhos de paixão.


Sorri amarelo para o menino e...

- E você lá tem idade pra reconhecer cara de amor, garoto?


- Ah... Tenho sim. Eu já amei de verdade uma menina. E você diz isso porque pareço mais novo do que realmente sou. Cara de bebê. Fazer o quê? (riso maroto)


- Hum... Sei (risos).


- E amor não tem idade não. Essa menina que gostei, por exemplo, era mais velha do que eu dois anos.


- Dois anos não é diferença...


- Quando se tem doze e ela quatorze, é sim.


- Pode ser... Com quatorze, nós meninas, já somos mulheres feitas.


- E a gente é menino pra sempre.


- (risos) Então nunca existe diferença.


- Só quando a gente quer que haja.


- Hum... (risos). E cadê a sua menina?


- Ih, é uma longa história...


- Eu gosto de histórias...


- Posso sentar pra contar?


- Só se prometer que não vai me levar dez reais. O último garoto carioca que sentou do meu lado levou dez paus (risos).


- (risos) Não, pode ficar tranquila que não tô conversando de golpe, não.


- Também espero que não seja arrastão porque estou só com a minha câmera e sou apaixonada por ela (risos).


- Puxa, agora você me ofendeu (risos).


- Tô brincando. Eu tenho uma boa intuição sobre o caráter das pessoas.


- Agora é tarde. Já sentei...


- Mas então... Conta da menina que fez você achar que reconhece paixão no rosto dos outros.


- Pois é... Minha vizinha. Morena assim como você. Com cabelão despenteado e tudo.


- Não tá despenteado!


- Jeito de falar. É bonito. Tanto que o seu me lembrou o dela. Ela era linda...


- "Era" por quê? Ficou feia?


- Ela morreu...


- Puxa, desculpa... Eu não sabia...


- Não, na boa. Faz tempo... Três anos.


- Mas... Tão nova. Quatorze anos... O que aconteceu?


- Acho que foi porque a gente se beijou...


- Não entendi...


- É... Fomos o primeiro beijo um do outro. E até hoje eu me pergunto se ela teria tido as idéias que teve se a gente não tivesse se beijado.


- Conta do começo...


- Agora que eu tô falando e lembrando do que aconteceu na época... Você já percebeu que coragem chama coragem? Sempre que tomamos uma atitude corajosa parece que as próximas ficam mais fáceis de serem tomadas. Já reparou nisso?


- Hum... Engraçado você dizer isso. É o que realmente acontece. Mas não viaja. Me conta a história do começo.


- Uma amiga dela me apresentou porque eu era morador novo no prédio. Eu era tímido, vivia mudando de cidade por causa do trabalho do meu pai e ela era toda extrovertida.

Conversamos tanto e foi tão divertido que depois a gente não conseguia mais parar de se ver. Ela era a menina mais legal que eu conhecia. Não tinha essas frescuras que as meninas têm de não conversar com menino mais novo, sabe? Ela conversava com todo mundo igual, mas nós dois tínhamos mais afinidades.


- Sei como é...


- Ela dizia que não se envergonhava de conversar comigo... Que eu era a única pessoa que ela falava sobre o que tinha vontade de fazer da vida, sobre o que sentia, sobre tudo.


- E ela queria muitas coisas da vida?


- Sabe que não? Ela tinha vontade de coisas simples: passear, viajar... ainda nem sabia o que queria ser profissionalmente. O que ela queria mais era passear. Passear sozinha. Sem pai, nem mãe na cola. Queria ver a cidade e o resto do mundo com os próprios olhos.


- Hoje em dia isso é complicado nessa idade... Ainda mais com pais super-protetores, cidade perigosa e tal.


- Foi o que aconteceu... A gente se beijou numa brincadeira de beijo, abraço e aperto de mão. Foi bem legal, mas aí a vergonha apareceu... Ela parou de falar comigo por uns dias e eu quase morri de tanta tristeza. Senti tanto a falta das conversas, do beijo e de tudo, que criei coragem e fui até a casa dela pra pedir que ela não mudasse comigo.


- Que corajoso da sua parte... Difícil fazer isso nessa idade. Aos doze anos a gente só pensa em sair correndo. Ainda hoje, vez ou outra, eu saio correndo.


- Mais fácil, né?


- É...


- Poís eu me arrependo de não ter ido lá antes...


- Por quê?


- No dia que eu fui, ela não estava; tinha saído com a mãe. Voltei pra minha casa e esperei. Angustiado, sabe? E nem sei se era só pelo amor que sentia. Quer dizer, hoje sei que não era. Ela morreu nesse dia. Insistiu com a mãe que queria passear sozinha. Pediu uma volta de metrô e a mãe aceitou, contanto que a deixasse em uma estação e a pegasse na outra. Pareceu brincadeira do destino. Morreu com um tiro de bala perdida na saída do metrô onde a mãe dela a esperava. Dá pra acreditar?


Durante muito tempo eu não soube o que fazer com a dor que eu senti, sabe? Queria um segundo beijo, reencontrá-la só mais uma vez, sei lá... Queria que ela tivesse conhecido outras estações.


Ah, não contei a história pra você chorar. Desculpa...


- Não, imagina... Me desculpe você. É que... Nem sei o que dizer.


- Não tem que dizer nada, não. Tem dias que é melhor a gente só ouvir. Ouvir, olhar pra dentro e descobrir as estações que faltam.


- Pra quê? Pra perder tudo no final?


- A gente sempre perde no final.


- Ela podia ter se perdido de propósito...


- Muita gente faz isso... Mas será que se perder assim não é só um jeito covarde de não lutar pelos nossos desejos?


- E que diferença isso faz no final?


- A diferença que você quiser que faça.


Ficamos em silêncio um tempo... Ele foi embora primeiro. Com as despedidas normais de um menino de quinze anos. Ainda brincou que eu era muito chorona...


Voltei pra casa arrastando os pés na areia de Copacabana. Me perguntando como é que um garoto naquela idade podia pensar e falar sobre a vida daquele jeito. Me perguntando se sabedoria vem com a idade ou nasce com a gente. Questionando a minha coragem...

Lembrando o quanto briguei com meus pais para que eles aceitassem minhas idas e vindas com as próprias pernas. Lembrando de todas as dores de amor que me trancaram em casa e de todas que me empurraram pra vida. Voltei pra São Paulo olhando para as estações que conheci e para as que ainda quero conhecer. Me perguntando em qual delas eu vou parar por um fim de semana, por paixão, por uma história... Qual delas poderia me fazer querer ficar para sempre, qual delas se tornará minha última viagem. Lembrei de quem não tem medo do fim, de quem acha que a viagem não pára no lugar que a gente chama de final... E quis roubar um pouco da fé do meu menino do Rio.


Segurei as lágrimas ao lembrar de uma música da Rita Lee que diz: "Não vou chorar se por acaso morrer do coração. É sinal que amei demais. Mas enquanto estou viva, cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz".


Lembrei do menino da praia, imaginei o rosto e a euforia de liberdade da menina andando sozinha pela primeira vez. Lembrei de Menino do Rio...


Peguei o avião algumas horas depois... Sozinha. Completamente sozinha, mas com o coração cheio de lembranças e os olhos transbordando paixão pela vida. Exausta, coloquei os fones de ouvido para espantar os pensamentos com música. Não adiantou...

Baby, junto com minhas preces, pedia para deus proteger-te.




 

Autoria de Alê Félix em junho 7, 2006



 



 


Dizem que a história da menina é verídica e que ela se chamava Gabriela Prado Maia Ribeiro. Depois da sua morte os pais criaram uma ONG chamada

SOU DA PAZ




 



 



 



 



 



 



 


publicado por fraga7 às 22:34
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1 comentário:
De Luís Alves de Fraga a 19 de Dezembro de 2006 às 13:20
Aqui está uma estória bem bonita e que dá para pensar. Pensar muito sobre o significado de um simples beijo ou de uma inocente viagem de metro, para além de muitas mais coisas que se podem ler nas entrelinhas.
Gostei.


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